violência (nas escolas)

jokervamos imaginar que os pais têm de trabalhar 8 horas por dia para ganhar o ordenado mínimo nacional ou pouco mais do que isso. vamos imaginar, que na melhor das hipóteses, os pais perdem cerca de 1 hora de viagem em transportes públicos, confortáveis e com lugares para todos, ou no seu próprio carro para chegar ao trabalho e depois chegar a casa. vamos imaginar que estes pais têm chefes/patrões que lhes pagam tarde e a más horas e ainda apelam ao seu bom senso, afinal é feio cuspir no prato onde se dá de comer e se reivindicam pelos seus direitos, os mandam enfiá-los onde quiserem. vamos só imaginar que há patrões/chefes que tratam os seus empregados como robots sem sentimentos que têm de produzir, produzir, produzir, todos os dias, fins- de semana, 24 horas sobre 24 horas, ininterruptamente. vamos só imaginar. vamos imaginar que os filhos destes pais estão diariamente à sua mercê ou porque já não têm avós que os cuidem ou porque os avós vivem longe ou porque já estão eles a precisar de cuidados ou porque os pais não têm dinheiro que pague mais uma despesa mensal, um ATL, uma sala de “estudos”, os filhos ficam à sua mercê. Vamos imaginar que estes filhos às vezes adormecem e faltam aos primeiros tempos da manhã porque até se deitaram tarde a jogar às escondidas, com a porta do quarto fechada, aquele jogo virtual onde, ainda assim, há alguém com quem se possa “estar”, eventualmente “conversar”. há alguém. há alguém acordado, porque os pais que acordam às 5 para saírem às 6, já dormem. vamos só imaginar. vamos imaginar que estes filhos diariamente fazem o que lhes apetece, comem o que lhes apetece, estão com quem lhes apetece, sabendo, porém, que em frente às escolas há sempre gente que se aproveita destas e de outras fragilidades e que ilude. há notas de euros em abundância, há a boa disposição que se compra e vende e “é na boa”. vamos só imaginar. vamos imaginar que os pais chegam a casa exaustos, sem paciência, na melhor das hipóteses sai um “correu bem o dia?” cuja resposta monocórdica é sempre “sim”, “o que é que almoçaste?”, “uma porcaria, arroz com atum”, “comeste a sopa?”, “sim” e “lanchaste?”, “sim”. falta “com quem estiveste? o que é que aprendeste hoje?”, ou simplesmente “estás bem, filho(a)?” olhos nos olhos e um sorriso nos lábios. vamos só imaginar. vamos imaginar que ao chegar a casa, há o jantar para fazer, com o qual também se prepara a marmita para o dia seguinte, há roupa para estender, lavar ou passar, há a cozinha para limpar, ainda há uns relatórios para fazer ou ler, ainda há uns e-mails para responder porque há a hipótese de progressão na carreira ou quem sabe de um aumento salarial. vamos imaginar que os filhos que andaram por aí, estão por aí na sua própria casa e depois do jantar, na melhor das hipóteses, a família até se fecha em silêncio em telemóveis, tablets, computadores, “I” isto, “I” aquilo. vamos imaginar que na pior das hipóteses, depois do jantar, há as discussões constantes, os gritos pai-mãe, mãe-pai, pais-filhos, filhos-pais, filhos-cão-gato-amigos-escola. ESCOLA. vamos só imaginar. há os pais que sabem que isto é errado e repreendem mas ao repreender o ambiente pesa, todos sabemos o que é contrariar um adolescente e isto cansa, educar cansa e os pais deixam estar, afinal também têm o que fazer e assim os filhos estão entretidos. educar cansa, é mais um cansaço, é mais uma tarefa. vamos só imaginar. vamos imaginar que no fim do mês, depois de pagarem todas as contas, os pais que conseguem, compram aos seus filhos as sapatilhas da moda ou outra coisa qualquer de marca “que toda a gente tem”, toda a gente sabe que é muito mais fácil ser igual a toda a gente. os pais conscientes sabem que erram, sabem que não é a compensar com bens materiais que se educa um filho, mas cedem porque se sentem mal, porque se sentem culpados, porque não querem que os seus filhos estejam abaixo de ninguém a sofrer o preconceito na pele. os pais inconscientes nem sequer pensam nos filhos, nem sequer sabem nada, se a escola correu bem, se precisam de alguma coisa como um abraço, portanto não percamos tempo a falar desses, já se sabe o impacto nocivo que têm na vida dos seus filhos. vamos só imaginar que há alienação parental. vamos só imaginar. vamos imaginar que a violência nas escolas se deve a tudo isto e por isso, quando na televisão se tenta falar de violência nas escolas, não se fala realmente de violência, porque violentos são os dias e sobre isso ninguém quer falar. vamos imaginar. vamos só imaginar que temos um problema social gigante nas mãos e todos vivemos tão roboticamente os dias que nos negamos a falar dele.

 

tantos os muros após o muro de Berlim

“Mr. Gorbachev, tear down this wall!” Ronald Reagan

 

30 anos sem muro de Berlim

 

“ Ninguém, e não faço exceção de Hitler, aplicou ao socialismo um golpe tão mortal. Hitler ataca as organizações operárias do exterior. Estaline ataca-as no interior. Hitler destrói o marxismo; Estaline prostitui-o. Não há principio que permaneça intacto; não há uma ideia que não tenha sido enlameada.”

Trotsky

 

(o totalitarismo de um e de outro, desvirtuou de tal maneira a ideologia que o mundo viu como única solução, saída, o capitalismo encabeçado pelos E.U.A. Afogamo-nos em coca-cola, empanturramo-nos em Macdonald’s, plastificamos o mundo, cegamo-nos em neons, esgotamos recursos naturais do Planeta em nome do TER, em nome da aparência. Comprar, comprar, comprar. produzir. produzir, produzir. Somos escravos (felizes), sem ideologia, vivendo os dias entre códigos de barras e filas de trânsito para o trabalho.)

selva

esta selva negra que engole o mundo de um trago

e dissolve a humanidade em gotas secas de orvalho,

mistura-se nas sombras ocas das árvores até deixarem de ser

até deixar de ser

até deixar

até ser.

~

espancam-se à porta da escola. não. um está no chão e o outro não. espanca-o na passividade da entrada. do porteiro. do velho porteiro da entrada. ninguém faz nada. pergunto a um velho se brincam. o velho responde que não. o que está no chão deita a cabeça no passeio, o outro levanta-lhe o peito agarrado à t-shirt que se rasga. que se rasgou. que se rasgará, quase de certeza que se rasgará. a cabeça parece tombar-lhe dos ombros e temo o pior. vi o pior. em mim vejo sempre o pior. vi a cabeça a rebentar depois de  três vezes embater no passeio. vi o sangue manchar as calças do puto que bate. vi o sangue espalhar-se pelo chão. corri. à medida que me dirijo a eles  grito “ei! ei! parem!” nada. grito “parem já! estão-me a ouvir!” nada. ouço “gostavas que fizessem o mesmo à tua mãe? e vejo a cara do puto agressor a agredir, pálido, lívido, branco com os olhos a enterrarem-se-lhe na carne “gostavas?”. peço para o largar. nada. o agredido suplica no chão “não se meta. não faça nada.” o agressor levanta-o do chão e empurra-o contra o muro de uma das muitas casas de família da praceta em frente à entrada. “Se não largas chamo a polícia!” nada. agarro no telemóvel e digito três vezes ou quatro ou cinco vezes 122. que raio de número é o 122. número nenhum. passaram cerca de dois minutos e um carro pára ao nosso lado. somos seis. seis pessoas. um é agredido, o outro agride, um vigia e está mocado, o outro junta-se aos fortes armado em forte, cara de anjo sem barba ainda, os outros dois estão só a ver e eu. eu estou a agarrar no agressor e nada. finalmente marco 112, falo com a polícia, identifico o local e não sei dizer mais nada. o que quer ser mau mas tem cara de anjo diz “a cota está a chamar a polícia e já tirou uma foto, parem lá” digo “a cota é professora nesta escola, “o que é que está aqui a fazer, caralho? Vá-se embora que isto não é consigo!” olho-o, chamo-lhe miúdo, digo “veja lá como fala, que nem pelos na cara tem.” dispersam. os maus e o que quer ser mau. vou dar aula. mando um aluno para a rua. acaba a aula e vou à direção. está lá a agente, dou o meu testemunho e faço participação disciplinar, não do agressor, nem do agredido, mas do que quer ser mau e por enquanto é “só” malcriado.

 

ep

out 19

sem título

esta tendência senil em caber em rotas poucas

bloqueia-me o ser e deixo de escrever.

(sem escrever o que sou?)

os dias não me são nada se forem apenas dias

os corpos não me são nada se forem apenas corpos

a vida não me é nada se for apenas vida, vivida

vivamente morta

porque a vida é também a morte

a vida é também o pensamento absoluto do que não existe

a vida é o que não existe

o que não se vê, apalpa, tem,

a vida é para além disso

e é isso tudo.

~ep~

out 19